
Esse termo nasceu em contraponto ao conceito de economia linear, nosso atual modelo de economia.
Atualmente, o indicador de boa saúde econômica de um país é a sua taxa de crescimento econômico, muitas vezes visto como sinônimo de melhoria das condições de vida de sua população. Há décadas, ter acesso a cada vez mais bens manufaturados, consumir mais e mais, é um ideal para muitos de nós. Somos constantemente incitados a consumir, seja por meio de propagandas que criam desejos e necessidades, ou pela força das datas comemorativas como o Dia das Mães, das Crianças, ou dos Namorades.
Nesse sentido, a escolha do Dia dos Namorades no Brasil é muito representativa. Em muitos países ocidentais, os casais comemoram seu dia em 14 de fevereiro, mas aqui no Brasil foi escolhida uma data diferente. Optou-se pelo mês de junho por ser, historicamente, um mês de desaquecimento das vendas: entre o Dia das Mães e o Dia dos Pais, e antes das férias escolares de julho. Em meados do século 20, o publicitário João Dória, pai do atual governador de São Paulo, sugeriu esta data comemorativa com o objetivo de aquecer a economia. Além disso, o dia 12 seria perfeito, por ser véspera da celebração de Santo Antônio, o santo casamenteiro.
Não se trata aqui de estigmatizar o consumo, apenas de repensar nossos hábitos, e ganhar cada vez mais consciência de que a forma e a quantidade que consumimos são escolhas, que têm consequências. É bem isso que a economia circular propõe: um novo olhar para nossas formas de consumo, com mais atenção para nossas relações com as pessoas e o planeta.
Levando em consideração tanto o fato de que os recursos são finitos, quanto que não existe “fora” no nosso planeta (como já contamos no nosso texto sobre Upcycling), a economia circular vem nos mostrar como podemos fazer diferente. Se na economia linear as três fases do processo produtivo são: extrair (matéria-prima), produzir e descartar, a economia circular visa aumentar as opções antes do descarte, prolongando a vida útil das matérias-primas já extraídas, e evitando assim a extração de novos recursos, aliviando (mesmo que não totalmente) nosso planeta.
A economia circular propõe várias alternativas ao descarte:
a reciclagem dos produtos que chegaram ao fim de suas vidas. Os produtos passam por um ou mais processos industriais com o objetivo de transformá-los em nova matéria-prima. É assim, por exemplo, que encontramos hoje no comércio camisas em fibras de garrafa PET (processo que tem seus limites também e que poderá ser objeto de outro texto);
a remanufatura: um exemplo bem característico são os celulares recondicionados. A partir da desmontagem de vários aparelhos defeituosos, pode-se reconstruir novos telefones, com as mesmas características e eficiência;
a redistribuição, que está em alta, por exemplo, no mundo da moda, com a revalorização dos brechós e das peças que têm história;
o reparo e a customização, que consiste em pequenas intervenções em um determinado produto, para torná-lo mais funcional ou atual. Vale também frisar que iniciativas se multiplicam para incentivar pessoas a consertarem em vez de descartarem seus bens;
o reuso, que consiste em criar produtos novos a partir de produtos em desuso, evitando assim um descarte prematuro. Esse processo, também conhecido como upcycling, está ganhando cada vez mais força.
Gostaríamos então de convidar vocês a exercitarem esse olhar, a questionarem cada vez mais suas escolhas, no seu tempo, sem culpa, pois sabemos que é um processo. Nós também estamos constantemente aprendendo, repensando e melhorando. Vem com a gente!
Por Ana Melo e Sandra Tournier, criadoras da D·Ridá
Para se aprofundar, vão aqui algumas referências:
RAWORTH, Kate. Economia Donut: uma alternativa ao crescimento a qualquer custo. Editora Zahar. Rio de Janeiro, 2017. Palestra com a autora realizada pela Casa Firjan disponível aqui.
SANTOS, Sofia. Economia circular, a economia do século 21. Palestra TED. Disponível aqui.
Fontes:
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